Formação e Novas Tecnologias
A história dos métodos formativos esteve desde sempre ligada às tecnologias emergentes em cada época. Na formação presencial, por exemplo, a utilização do retroprojector e, mais tarde, do datashow, definiram a construção de meios pedagógicos em tempos diferentes. O recurso a cassetes de video e a CD-roms é também exemplo de tecnologias que marcaram a evolução da formação à distância.
e-Learning: apenas um novo meio ou elemento de um novo paradigma?
A designação e-Learning pode ser enganadora: parece colocar a ênfase na tecnologia (“e”, de “electronic”) e situar o media antes da aprendizagem. Mas, na verdade, ao estimular o trabalho colaborativo e a aprendizagem contínua, a utilização de ferramentas formativas assentes nas tecnologias da informação constitui um poderoso suporte do desenvolvimento dos recursos humanos. Especificamente, a introdução do e-Learning acelera de forma decisiva a mudança da abordagem tradicional, que tendia a tratar o formando como um receptor passivo de informação, para uma perspectiva dinâmica da formação, em que o formado é participante activo do processo de aprendizagem.
Abordagens centradas em processos de aprendizagem activa exigem meios diversificados que estimulem e combinem os diferentes processos de auto-regulação da motivação e do esforço dos formandos. A aposta mais recente neste domínio passa pela criação de portais que promovam a aprendizagem colaborativa (“eLearning 2.0”), incluindo a aprendizagem informal através de blogs, wikis e fórums.
Assim, um processo formativo que pretenda optimizar a aprendizagem activa deverá apoiar-se no conceito de “Blended Learning”.
Blended Learning: o futuro da formação passa por aqui
Quer nos mais recentes trabalhos de investigação, quer em várias análises de necessidades de formação, deparamo-nos com as seguintes questões:
Como aumentar a flexibilidade da formação?
Como personalizar os percursos formativos em função dos projectos individuais, dos contextos profissionais e familiares dos formandos?
Como potenciar a interacção social?
Como reduzir os custos da formação?
Podemos resumir estas preocupações numa só questão: como conceber um dispositivo de formação eficaz? Entendemos por eficaz, um dispositivo centrado no formando, capaz de induzir uma aprendizagem em profundidade.
No âmbito de um vasto projecto de investigação no Reino Unido – Enhancing Teaching and Learning, Noel Entwistle e a sua equipa identificaram as características dos dispositivos de formação que aumentam a qualidade da aprendizagem:
permitem percursos formativos flexíveis, negociados em função das características e das necessidades dos formandos;
proporcionam flexibilidade na escolha do local e do momento de formação;
oferecem uma diversidade de recursos disponíveis;
incluem uma avaliação rápida e contínua (feedback imediato);
propõem actividades estimulantes, ligadas à prática profissional e ao projecto individual dos formandos;
respeitam a coerência entre os objectivos, a metodologia e a avaliação;
recorrem à utilização das novas tecnologias;
incentivam a colaboração, partilha de ideias;
incluem momentos de avaliação e regulação do próprio dispositivo.
Para responder eficazmente a estes dois conjuntos de exigências, assiste-se a um forte desenvolvimento de novos dispositivos de formação, orientados para o desenvolvimento de competências profissionais e para a personalização dos percursos de formação. As análises dessas necessidades e dos referenciais das competências-alvo conduzem cada vez mais à concepção de dispositivos blended learning.
A modalidade blended learning pode articular momentos presenciais e à distância, suportados por tecnologias que mediatizam parte do dispositivo de formação, independentemente do seu formato ou meio utilizado.
O seu sucesso, do ponto de vista metodológico, resulta da capacidade de combinar equilibradamente diversas metodologias e tecnologias, com o objectivo de melhorar a eficácia do processo de aprendizagem.
Num projecto de investigação, lançado por Universidades suíças, belgas e francesas (Charlier, Deschryver & Peraya, 2006) , foram analisados diversos dispositivos blended learning a nível internacional, tanto no ensino superior como na formação profissional. O objectivo era identificar os efeitos destes dispositivos sobre o processo de aprendizagem. Os resultados indicaram que os dispositivos analisados apresentavam todas as condições que induzem uma aprendizagem em profundidade, levando os investigadores desse projecto a concluir que estavam perante dispositivos particularmente eficazes.
Nos resultados apresentados pela Brandon Hall Research, na sequência de investigações levado a cabo em empresas como Ticketmaster, Accenture, Amdocs, IBM, Caterpillar e Boeing, a modalidade blended encontra-se no centro da estratégia de formação adoptada, sendo assumida como uma inovação imprescindível. Os níveis de satisfação sustentam esta opção e os resultados reforçam a hipótese anteriormente formulada: dispositivos blended learning são particularmente eficazes. As empresas envolvidas no estudo realçam “o maior impacto ao menor custo”, como sendo o resultado mais positivo desta inovação tecnopedagógica.
Qual a melhor estratégia formativa?
A única resposta sensata é “depende”. Depende dos objectivos do projecto; da cultura de formação da empresa e , naturalmente, das características dos participantes. Mas depende igualmente da infra-estrutura existente; do orçamento disponível; prazos e duração prevista.
A melhor estratégia formativa será certamente aquela que resultar da selecção dos “ingredientes” que melhor se ajustarem do ponto de vista pedagógico e económico a todas estas variáveis.
Pela combinação de várias metodologias, meios e suportes que o caracterizam, pela flexibilidade que oferece, pela redução de custos que proporciona, o blended learning pode ser estrategicamente planeado como meio de atingir resultados pedagógicos e económicos altamente satisfatórios.
Sendo já uma realidade para um grande número de organizações em todo o mundo, desde empresas familiares a multinacionais, de pequenas escolas a grandes universidades, o blended learning será cada vez mais a resposta adequada.
O futuro da formação passa inevitavelmente por aqui.
Patricia Santos, eLearning Manager, CEGOC