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Celebrar os falhanços profissionais?

É comum que os temas “Sucesso” e “Falhanço” nos sejam apresentados como sendo díspares, contrários, impossibilitados de viverem em conjunto. Já todos vimos imagens que contêm setas indicando dois destinos diferentes: o sucesso ou o falhanço. Colocam a questão como se a determinada altura, e chegados a esse cruzamento, tivéssemos apenas duas opções: ou seguir pelo caminho do tão almejado sucesso ou, pelo contrário, seguir pelo desprezível caminho do falhanço. Quem, perante tais opções, e em posse do seu perfeito juízo, escolheria a opção das falhas e fracassos? É óbvio que o caminho a seguir é o do sucesso. O outro possui demasiados buracos e becos sem saída para sequer ser considerado.

Então, se nos é dada esta opção, se a questão nos é colocada assim, por que razão continuam as pessoas a falhar? Por que razão parecem escolher o tal caminho menos desejável, proibido, até? Se falham, segundo nos dizem, é porque assim escolheram. Certo?
Errado.

Para que fosse honesta e realista, as tais setas deviam ambas apontar na mesma direcção. Seja para que lado se for, haverá sucesso e falhanço. Haverá sucesso através do falhanço; falhanço através do sucesso. Os dois conceitos, por muito que sejamos educados e levados a crer que assim é, não são mutuamente exclusivos e muito menos conseguem viver um sem o outro. Andam de mãos dadas, numa relação por vezes de forte amor-ódio, mas têm uma ligação impossível de quebrar. Saber lidar com esta realidade, saber geri-la e transformá-la em algo de útil, é o truque que se vai aprendendo da forma mais difícil: falhando.

O falhanço, tal como o sucesso, é um conceito pessoal e intransmissível. Cada pessoa tem a sua ideia e motivos para crer nele. As discrepâncias começam a surgir quando nos permitimos invadir as rotulagens dos conceitos – que o sucesso está ligado a bens materiais, e que o falhanço está ligado ao tipo de trabalho ou emprego que temos, por exemplo. Assumimos estas visões generalistas (e erradas) do que são os conceitos e avaliamos as outras pessoas de acordo com as mesmas. Pior, permitimos que nos avaliem a nós também. Não é justo.

É neste espaço entre o eu e o eles que começam a surgir os medos, os receios e as dúvidas existenciais. De acordo com o que “deveria ser”, pontuamos a nossa existência e renegamo-nos para o canto do bem (do sucesso) ou do mal (do falhanço). As consequências desta forma de pensar tão 08 ou 80 são perigosas e em nada contribuem para uma visão mais saudável e positiva daquilo que faz parte da natureza humana – nós falhamos! Muito!
Em mais sítio nenhum é isto sentido com tanta veemência como nas empresas e organizações. Os falhanços a nível profissional são intolerados, inaceitáveis e, ainda, castigáveis.

Nas nossas profissões e carreiras, falhar é sinal de se ser mau profissional, incompetente, incapaz. Só o sucesso é retribuído, recompensado, elogiado, e, curiosamente, se quando algo falha a primeira pergunta a fazer-se é “porquê?”, quando algo corre bem, nem se questiona.

Para perdermos o medo que temos de falhar e do terror que sentimos quando nos acontece, temos urgentemente de mudar de perspetiva. Para além de ser necessária uma abertura de espírito provinda de nós e dos que nos rodeiam, temos de recusar o valor negativo que é atribuído a qualquer falhanço. Falhar é uma excelente forma de recolher informação para se tentar de novo após a lição aprendida. Falhar significa aprendizagem e crescimento, significa aumento de competências e de capacidades. O sucesso, o verdadeiro sucesso, é conseguido por pessoas que sabem disto e que conseguem colocar o ego de parte e aprender com a situação, por muito que custe.

Falhar faz parte da condição de sermos pessoas. Sendo pessoas, falhamos, evoluímos, crescemos e aprendemos. As empresas e os seus responsáveis têm aqui uma excelente fonte de informação que pode levar a mais e melhores sucessos. É só olhar e ver, sem repudiar, castigar ou julgar. Os “porquês do falhanço” levarão aos “comos do sucesso”. Não falha nunca. 

Sónia Teles Fernandes
Criadora do World Failurists Congressspeaker motivacional com o tema Celebrating Failure 

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