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Qual a sensação de se estar a falhar? 

É das perguntas mais constrangedoras que se pode fazer a alguém: o que sentes quando estás a falhar? Cada um de nós possui as suas referências, os seus casos, as suas situações gravadas na memória e arrumadas na gaveta “experiências a não repetir”. Ao pensarmos na resposta, somos remetidos para esses momentos e mudamos logo de cara. Quase que experimentamos de novo a dor, frustração e zanga (entre outras coisas) que tal nos terá provocado. Recordamos os problemas que surgiram, as consequências negativas do falhanço, as reações das outras pessoas, os discursos mais ou menos acalorados com que nos presenteiam, e, acima de tudo, o sentimento de incredulidade e incompetência perante a situação.

Quase que sentimos o rótulo de “falhado” ou “falhada” a ser-nos firmemente colado na testa ou noutro sítio igualmente visível, mas a sensação é a de que nos acabaram de tatuar o local para que nunca mais nos esqueçamos do acontecido. Os olhares, a falta de confiança, a auto-estima que desaparece – sendo suficientemente grave, é algo para nos atormentar e colocar em causa durante muito tempo. Há quem nunca mais se consiga levantar e permaneça de joelhos, sem forças ou coragem para se colocar em pé de novo, ou de lutar contra os que empurram uma e outra vez sempre que se tenta, vacilante, recuperar.

Falhar é uma batalha que envolve mais pessoas do que apenas nós e, muitas vezes, por muita vontade e capacidade que tenhamos em nos voltar a erguer, há quem não considere isso justo ou correto e, sem fé alguma, não permita que se mostre o que se aprendeu no processo.

A nossa mente demora milissegundos a percorrer uma situação de falhanço e a estampar o que sentimos na nossa cara – e não, o resultado não é muito bonito. Há expressões que não enganam. No entanto, tais respostas não são as mais acertadas para a pergunta colocada.

Estas são as sensações e pensamento que nos invadem quando sabemos que falhámos. É informação que nos chega a posteriori. Só sabemos que falhámos depois de o termos feito e tal reconhecimento, tal antes e depois, pode, por vezes, ter o mesmo efeito que um valente balde de água fria. Deixa-nos baralhados e confusos, arrepiados e de imediato colocamos em questão tudo o que teríamos estado a fazer, revemos tudo até ao mais minucioso pormenor, analisamos tudo em busca do momento, daquele momento, aquele preciso momento, em que tudo mudou. Começamos à procura dos porquês de forma quase frenética, tentando ainda, se der, recuperar e salvar a situação para que tudo não seja tão mau quanto tememos. Mas é. Às vezes, consegue ser ainda pior.

Os planos tão cuidadosamente criados, os meios e recursos tão pensadamente distribuídos, os esforços tão bem medidos, os prazos tão bem acautelados – tudo feito para que nada falhasse e, de repente, por uma qualquer razão que até se pode nunca vir a saber (se não se analisar a situação como deve ser, claro), tudo isso desaparece e é como se nunca tivesse sido.

O medo que temos de falhar, aquele medo que de tão forte nos pode gelar no lugar e impedir de sequer tentar seja o que for, esse medo não vem diretamente do que sentimos e vivemos quando falhamos, quando sabemos que falhámos. Esse medo, esse quase pavor, vem de não sabermos exatamente quando começamos a falhar. De não conseguirmos precisar o exato momento em que tudo muda e distraídos, inconscientes ou irresponsáveis, continuamos com o planeado, sem ajustar, sem remediar, sem parar para pensar.

Qual a sensação de se estar a falhar? Exatamente a mesma que estarmos a fazer tudo certo. Só quando temos acesso a informação relevante é que conseguimos perceber que estivemos, durante aquele tempo todo, a fazer algo mal feito ou erradamente.

Estarmos a falhar é igual a estarmos a ter sucesso. Só depois temos informação suficiente para perceber qual sobra. E é aí, no depois, com conhecimento de causa, que se vê quem vacila e cai e quem, mesmo que cambaleando, segue em frente e aprende. Haja forças.

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Sónia Fernandes
Criadora do World Failurists Congressspeaker motivacional com o tema Celebrating Failure 

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