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Consultoria, Opinião online

Dedo na Ferida

Portugal está definitivamente na moda. Para além de causas conjunturais externas, a segurança, clima, gastronomia, hospitalidade, belezas naturais e talento, entre outros, fazem com que cada vez mais cidadãos estrangeiros oriundos dos “quatro cantos do mundo” pretendam visitar e residir no nosso país.
As características acima descritas são apanágio lusitano há muito. Mas, fraquezas de países terceiros conjugadas com a retoma do investimento privado, resultaram em aumentos significativos dos diferentes rácios referentes ao turismo. Se a isto juntarmos o insuflar de uma dose substancial de confiança por parte dos governantes nacionais e consequente “mexida” do mercado interno, ficamos com as principais “pistas” para o “crescimento moderado” do Produto Interno Bruto (PIB) em 2016, registado no boletim económico de maio do Banco de Portugal.
Não há, contudo, “bela sem senão”. O mesmo documento considerou, também, o fraco crescimento da produtividade do trabalho “um fator de preocupação”. E acrescentou que “a produtividade aparente do trabalho, medida com base nas Contas Nacionais Trimestrais do INE (Instituto Nacional de Estatística), apresentou uma redução em 2016, o que se insere num quadro de dinamismo inferior e atípico face ao observado em anteriores fases de recuperação económica”.
Acrescenta o Banco Central que “o reduzido crescimento da produtividade (…) na economia portuguesa nas últimas décadas (…) limita a capacidade de sustentar maiores níveis de consumo sem incorrer em desequilíbrios externos”, recomendando mais investimento.
Os conselhos do BdP gravitaram à volta de investimento em maquinaria (computadores, equipamento de comunicação e outras máquinas), material de transporte e software. Considero-os, todavia, insuficientes para estancar a redução do rácio de capital por trabalhador na economia portuguesa e reduzir o gap face aos restantes países europeus.
As alterações da estrutura produtiva têm de ser acompanhadas de significativas mudanças nas competências de trabalhadores, dirigentes, gestores e empresários.
Desde logo, a montante, ou seja, durante a escolaridade obrigatória, educando e sensibilizando para “pormaiores” como respeito pelo próximo; cultura de agradecimento e “parabenização”; noção de tempo, espaços e locais para trabalhar e para brincar; interiorização dos diferentes papéis sociais desempenhados ao longo do dia e correspondentes comportamentos (na escola, em casa, na rua, em local público, etc.). Mas, também, reduzindo a quantidade de matérias generalistas, atualmente acessíveis através das modernas formas de aquisição de conhecimento; fomentando o trabalho em equipa; criando uma disciplina de Liderança; transmitindo os conteúdos académicos maioritariamente de forma vivencial, experiencial, prática e não meramente expositiva; concedendo liberdade e disponibilizando locais/contextos para criarem, empreenderem e opinarem.
Ainda a montante, há que revitalizar o ensino técnico-profissional ao nível dos saberes práticos atualmente necessários e, de uma vez por todas, reduzir o fosso entre as competências requeridas pelo mercado de trabalho e aquelas com as quais se chega às organizações. Isto, quer em termos de ensino superior, quer por parte das entidades públicas responsáveis pela formação profissional.
A jusante torna-se primordial, entre outros, reconverter saberes desfasados das necessidades organizacionais em conhecimento prático e atual; desenvolver as competências dos gestores de PME’s; formar decisores organizacionais, transformando-os em líderes.
À semelhança da imposição de quotas para o acesso a cargos nas Administrações das empresas por parte de mulheres, julgo que somente pela “força da lei” conseguiremos alterar determinadas “pechas” lusitanas, nomeadamente aquelas que acima descrevo como “a jusante”. Porque não, por exemplo, a existência de carteiras profissionais obrigatórias para o acesso e exercício de determinados cargos?
Andará, com certeza, à volta do exposto o modo de ultrapassarmos a crónica problemática da produtividade nacional.

Por: Manuel Sousa Antunes, co-founder & partner da UNEEQ Consulting Group

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