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Somos feitos de arte e ciência

Somos feitos de arte e ciência, sonhos e matemática, dois mundos diferentes que habitam a mesma mente. O espantoso é que em cada experiência da ciência acontece o mesmo que numa obra de arte, pois tudo começa num ato de imaginação. Talvez a inspiração tenha fontes diferentes, uma na natureza exterior e outra na interior. Talvez uma precise de linguagem diferente da outra. A relação entre a arte e a ciência acompanhou a mesma discussão que houve entre a racionalidade e a emoção, entre o lado esquerdo e direito do cérebro. Conhecemos esse percurso que começou com uma total separação entre os dois lados, depois a procura do domínio de um sobre o outro e até ao momento em que começaram a dialogar e a negociar. A ciência afirmava que a arte precisava racionalizar, a arte respondia que a ciência era redutora. Em determinado momento acabaram por concluir que ambos tinham de mudar de atitude. A arte precisava ouvir a ciência como uma coisa inspiradora da realidade e da leitura da natureza. A ciência tinha de reconhecer que não era a única verdade e não tinha o monopólio do conhecimento. A atitude certa ia no sentido de ambos adotarem a humildade como valor dominante nessa relação.

Penso que o debate entre a gestão e a liderança criativa reflete um caminho igual a este, ambos usaram argumentos semelhantes.

Vale a pena revisitar o século XIX que foi prodigioso a nível da ciência e da tecnologia. Ele viu nascer, entre outras coisas, o comboio a vapor, a cirurgia plástica, a máquina de costura, a calculadora mecânica (percursora dos computadores), a fotografia, o telefone, o cinema. Tudo isto foi de tal maneira marcante e disruptivo, que o romantismo e a essência humana foram postos em causa e o Homem foi considerado uma espécie de macaco fardado. É muito semelhante ao que vemos hoje na euforia do milagre tecnológico e robotização, uma falta de perspetiva histórica.

Mas no século XIX os artistas acompanhavam, gostavam, questionavam a ciência e olharam bem para dentro de si. Responderam, então, com o mesmo tipo de disrupção que as tecnologias e acabaram por ir até mais longe. Eles passaram a antecipar muitas das futuras descobertas científicas, a arte antecedeu a ciência. A arte moderna foi caótica, as pessoas não entendiam uma poesia de verso livre, a pintura abstrata, os romances sem uma história de enredo, a música que mais parecia um ruído. Mas as verdades científicas passaram e essa arte permanece. E entre as muitas descobertas científicas que foram antecipadas pelos artistas, e que a ciência só as explicou muito mais tarde, contam-se: a plasticidade do cérebro, a liberdade da genética, a relação entre corpo e mente, o domínio dos sentidos do olfato e sabor nas memórias de longo prazo, a organização e funcionamento do sentido da visão.

O que parece distinguir este século XXI, e num mundo novamente dominado pela tecnologia, é a variável tempo, pois tudo é mais rápido e difícil de acompanhar. Num movimento desta natureza, a única resposta da gestão, mas sobretudo da liderança, é desafiar a tecnologia e a ciência por antecipação… Antecipar é a palavra de ordem!

É ouvir o que diz António Damásio quando lhe perguntam qual foi o maior cientista na sua área? Ele responde sem hesitar que foi Shakespeare! Por isso, precisamos da narrativa e da resposta que foi dada no século XIX por artistas como Walt Whitman, George Eliot, Proust, Cézanne, Stravinsky… Antecipar o futuro e ser ainda mais veloz, porque tudo começa num ato de imaginação…

Por: Jorge Marques

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