Entrevistas, Escolas e Universidades, Formação & Desenvolvimento, Tecnologias de Informação

O passado, presente e futuro da Educação em Portugal

A Futurália está de regresso para a sua 10.ª edição, entre os dias 29 de março e 01 de abril, na FIL, Parque das Nações, e este ano tem como tema principal a realidade e os desafios da Indústria 4.0.
A maior feira de Educação, Formação e Empregabilidade do País serviu de mote para a conversa que tivemos com o Professor Eduardo Marçal Grilo, presidente do conselho estratégico da Futurália, onde abordámos vários temas urgentes em Portugal como a educação, a formação ao longo da vida, o emprego e a juventude.

RHonline (RH): O conselho estratégico da Futurália, a que preside, tem vindo a intervir para criar novos caminhos para se ensinar e aprender em Portugal. Este ano, com a edição do Fórum Futurália 2020, quais as ideias principais que pretendem ver refletidas?

Prof. Eduardo Marçal Grilo (EMG): A Futurália é uma grande mostra daquilo que são as possibilidades de aprendizagem e de formação que os jovens têm, sobretudo, até aos 18 anos, onde aparecem as escolas profissionais, os institutos politécnicos, as universidades – portuguesas e estrangeiras –, oportunidades de estudar no estrangeiro… De há um ano para cá, o conselho estratégico da Futurália tem vindo a debruçar-se sobre o que são as novas formas de ensinar e de aprender e o que é que isso implica em termos de alterações significativas que se vão ter de verificar, quer ao nível da escola, quer ao nível da sala de aula, quer ao nível do comportamento e da forma de atuar dos professores, quer ao nível da forma como os estudantes aprendem, porque têm hoje uma panóplia enorme de meios de que se podem socorrer para aprender e para receber formação e informação. E pensámos, também, que para além do certame, para além dos quatro dias em que vão as dezenas de milhares de pessoas à FIL para ter contacto com as instituições, pensámos que a Futurália podia organizar outro tipo de iniciativas, e uma iniciativa que este ano vai ter lugar durante o próprio evento é um conjunto de momentos de reflexão sobre as novas questões que se colocam ao ensino e à aprendizagem. Por um lado, a questão central das novas tecnologias, tudo aquilo que é esta parafernália imensa de meios a que todos os estudantes hoje têm acesso, e, por outro lado, perceber um pouco aquilo que é também o contexto europeu, que é um contexto muito importante, perceber qual é o papel que a escola tem e o papel que a escola deve ter, como é que ela se deve assumir, porque uma das questões centrais é que a escola e, sobretudo, a sala de aula ainda é muito a sala de aula de há 20, 30, 40, 50 anos. Há muitas alterações, há muita coisa a funcionar de forma diferente, mas há muitos sítios onde ainda temos uma configuração da sala que é muito parecida com a que era aqui há uns anos atrás, e isto não se muda muito por decreto, isto muda-se na prática, muda-se escola a escola, numa grande consciencialização por parte, sobretudo, dos professores, dos pais e dos estudantes. Portanto, eu julgo que a Futurália está muito aberta e está muito interessada em fazer um trabalho não apenas para o ano 2017, mas projetar um pouco aquilo que possa ser o papel da Futurália e de iniciativas da Futurália para além do certame, no sentido de consolidar esta ideia de mudança, de inovação, de fazer novo, de fazer diferente e de aproveitar aquilo que são as grandes oportunidades que se abrem hoje com tudo isto.

RH: Nos últimos testes PISA (Programme for International Student Assessment), pela primeira vez, os alunos portugueses ficaram acima da média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico). Na sua opinião, o que levou a estes resultados?

EMG: Eu acho devemos olhar para isto com alguma serenidade. Estamos perante um muito bom resultado, mas não devemos ficar a contemplar isto como se fosse uma maravilha. Acho que isto é o resultado do trabalho, em primeiro lugar, dos alunos pois foram eles que fizeram os testes; depois, das educadoras de infância, dos professores do primeiro, segundo e terceiro ciclos; depois, dos pais e das famílias, e sobretudo das mães que têm uma importância enorme na educação e no acompanhamento dos filhos; depois, dos diretores dos agrupamentos e dos diretores das escolas, dos próprios (alguns) municípios, aqueles que atribuem grande importância à escola, e obviamente que há um pano de fundo que eu acho que é importante na sociedade portuguesa, que é uma certa ideia, uma certa cultura que é um bocadinho transversal, hoje, à sociedade de que é preciso avaliação e de que é preciso exigência. E não é uma questão dos exames, a exigência vai muito para além dos exames e dos testes. É aquele sentimento, aquela atitude que cada um deve ter para consigo próprio, no sentido de fazer mais e melhor.
Depois poder-se-á perguntar se as políticas públicas não tiveram importância nisto. Claro que tiveram importância, claro que há muitos aspetos que foram desenvolvidos ao longo dos últimos 20 anos que tiveram os resultados que estão expressos no PISA, porque isto não se trata apenas de um pico, trata-se de um resultado consolidado. Há aqui uma tendência que temos de compreender, porque tudo o que se fez, desde o final dos anos 70, ao nível da formação dos professores e dos sistemas de avaliação nas escolas, a própria lei de bases, os 30 anos da lei de bases que foi muito consensual na altura e que, com alguns avanços e recuos, os vários governos vieram cumprindo com alguma continuidade, e tudo isto espelha-se hoje naquilo que são os resultados não só do PISA, mas também nos resultados do TIMSS (Trends in International Mathematics and Science Study) e do PIRLS (Progress in International Reading Literacy Study). São três conjuntos de testes internacionais onde se percebe que Portugal, comparado com outros países, tem tido uma melhoria significativa no que toca aos comportamentos dos estudantes.
Há aqui um outro fator, que é um fator de fundo, que é o dos níveis educativos dos pais. Quando olhamos para as estatísticas vemos que os pais de hoje têm uma formação, um nível educativo, muitíssimo superior ao que os pais tinham há 20 ou 30 anos, e isso tem uma influência muito grande.
No PISA, há, no entanto, um fator que é muito relevante. Portugal faz um progresso muito grande nos estudantes vindos das camadas mais desfavorecidas da população, e isso é uma grande virtude das escolas portuguesas, sobretudo das escolas públicas.
Mas retomando a minha ideia inicial, não vamos “embandeirar em arco”, vamos considerar que isto é um grande desafio e que, agora, continuar a progredir é mais difícil.

RH: A Comissão Europeia tem reiterado a necessidade imperiosa dos Estados Membros produzirem reformas profundas nos seus sistemas de Educação e Formação. Portugal, por razões conhecidas, apresenta muitas dificuldades em alcançar as metas para 2020. Que recomendações faria para acelerar este processo?

EMG: Eu julgo que há aqui três ou quatro coisas que é preciso fazer, sobretudo ao nível do funcionamento da escola. Uma delas é a colaboração, que tem de ser muito mais intensa, entre os professores da mesma escola. Não pode haver aqui compartimentos estanques, tem de haver uma grande ligação ao nível horizontal e ao nível vertical.
Por outro lado, um dos grandes problemas que mantemos são as altas taxas de repetência. Aqui o importante não é facilitar a vida ao estudante, mas sim incentivar as escolas a criar condições para que todos consigam aprender. O objetivo não é fazê-los passar de ano só para baixar as taxas de retenção. É necessário criar as condições para que as escolas possam mobilizar-se para fazer um ensino muito centrado nas dificuldades que o estudante tem e procurar ultrapassá-las. Está hoje provado que não é a repetência per si que faz com que o estudante no ano seguinte aprenda melhor. O que é preciso é encontrar as formas para que ele ultrapasse as dificuldades que tem, e muitas vezes isso pode-se conseguir através de apoios dentro da própria escola, que é algo que está em curso, como a criação de tutores que possam acompanhar estes estudantes que têm determinado tipo de dificuldades. Este combate à repetência a ao abandono escolar são duas áreas em que podemos fazer muitos progressos, mas temos que nos mobilizar para isso. Mais do que os decretos, mais do que os regulamentos e as determinações vindas do Ministério, é o que se passa nas escolas que conta. É o que se passa na sala de aula, entre os professores, entre os professores e os seus estudantes, pegando naqueles que têm maiores dificuldades, dando-lhes os apoios necessários dentro da escola, e com a preocupação de cada um poder ultrapassar as dificuldades que estão identificadas, porque é relativamente fácil, por vezes, identificar onde está o problema de um determinante estudante. Ora, isto implica uma grande atenção a cada estudante per si e não propriamente o tratamento apenas da turma.

RH: Portugal, de forma mais acentuada que outros membros da União Europeia, tem um gap significativo no envolvimento de profissionais na Aprendizagem ao Longo da Vida, estando ainda longe da meta definida para 2020. O que deve acontecer para se chegar mais perto dos objetivos?

EMG: A formação contínua e a formação de adultos passam muito pela criação de um grande diálogo entre a escola e a empresa, entre a escola e os empresários, entre a escola e as organizações patronais, entre a escola e os sindicatos, entre a escola e as pessoas que, na sua vida profissional, têm uma preocupação com a aprendizagem. Eu lamentei, na altura, a interrupção do programa das “Novas Oportunidades”. Para mim foi um passo que não foi correto, porque se havia coisas que não corriam bem, deviam ter sido corrigidas e não se devia ter encerrado o programa. Não estou a dizer que se deva retomar o “Novas Oportunidades” exatamente como ele funcionava, mas as escolas e, neste caso, o Ministério com o apoio das empresas, devem ter a possibilidade de retomar aquilo que era uma linha de oportunidades para as pessoas poderem regressar à escola ou poderem obter aquilo que não obtiveram na altura devida. É um dos três desafios, eu diria, o terceiro grande desafio. O primeiro é o abandono, o segundo é a retenção e o terceiro é a formação ao longo da vida e a formação dos adultos.

RH: A Inteligência Artificial tem vindo a alimentar expetativas sobre a aprendizagem no futuro. Na sua visão, quais as tendências que surgem no horizonte?

EMG: Ao longo dos tempos, normalmente, uma nova abordagem do problema, uma nova tecnologia, uma nova forma de atingir determinado objetivo, não substituiu inteiramente aquilo que existiu até então. Hoje há uma multiplicidade de meios para aprender: aprende-se com uma aula, com uma conferência, com um livro, com um filme, com a rádio, com uma revista, com o Facebook, com o Twitter, com a internet… No futuro, os alunos e os professores vão ter um conjunto enorme de meios, como hoje já acontece, em que o estudante é posto perante a possibilidade de aprender recorrendo, por exemplo, apenas à internet. Mas pode iniciar na internet a acabar a ler um livro, ou uma enciclopédia, ou a ver um conjunto de filmes sobre uma determinada experiência ou um determinado facto, ou ainda um conjunto de estatísticas. Não são coisas incompatíveis, tudo isto se compatibiliza. O que isto implica é uma relação entre o professor e o aluno diferente do que era no meu tempo, há 50 anos.
A alteração da escola vai ser feita pelos próprios estudantes, porque tendo todos, ou praticamente todos, um smartphone e estando ligados à internet, têm a possibilidade de apanhar informação dos mais diversos sítios e de comunicar uns com os outros. O que é preciso é que o professor, os pais e os próprios estudantes percebam que há conceitos de base que só se adquirem se houver determinado tipo de enquadramento para essa informação. O aprender a ler, por exemplo. Ler não é um ato natural, ler é um ato cultural. E para lermos, termos de perceber como é que aquilo funciona, e isso implica uma técnica, uma metodologia de ensino.
Portanto, as tecnologias são muito bem-vindas, é preciso ter uma grande formação para as utilizar, vai haver muitos professores com grande capacidade para as mobilizar, vai haver outros que vão aderir por demonstração, apenas quando perceberem que aquilo funciona, e vai haver outros que não querem sequer experimentar. Obviamente que, com o tempo, estes grupos foram-se modificando porque, hoje em dia, as tecnologias tornaram-se tão banais que, como dizia há pouco, vão ser os próprios estudantes a mudar a escola. A escola vai mudar não pela oferta, mas por quem a procura.

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