4
Entrevistas, Formação & Desenvolvimento

Ensinar desporto é ensinar a viver

Para João Batista Freire, um dos nomes mais importantes da pedagogia da Educação Física brasileira, o desporto vai muito mais além do que a simples prática da modalidade, pois mobiliza intensamente determinadas maneiras de pensar, a cooperação e o conhecimento do próprio corpo. Este foi o ponto de partida da nossa conversa com um homem que entende o desporto da maneira mais ampla possível na formação da vida das pessoas.

Entrevista publicada no caderno especial da revista Visão n.º 1268, de 22 de junho de 2017

Considera que a educação desportiva ainda não constitui, atualmente, uma prioridade para os governos e respetivas sociedades? Porquê?

João Batista Freire (JBF): Eu teria de conhecer muitos governos para dizer que a educação desportiva não é prioridade em todos. Sei que não é prioridade em muitos e, em alguns que dizem ser, na prática essa prioridade não se materializa. Fui à China e conheci um pouco do desporto chinês. O futebol educacional é prioridade no atual plano de 20 anos do governo daquele país. No Brasil, sem dúvida alguma, a educação desportiva não é prioridade. No meu país, os governos preferem esperar que caiam do céu algumas pessoas superdotadas para o desporto, em vez de investirem na educação desportiva. Parece-me um tanto óbvio que num país em que todas as pessoas tenham o desporto como elemento da sua educação, até mesmo o desporto de alto nível se beneficiaria. Se o desporto educacional fosse prioridade num país, o desporto de alto rendimento, mesmo sem ser prioridade, seria inevitável.
O desporto representa um filão de riquezas enorme. Produz algo em torno de 2,5% do PIB mundial. É disputado por alguns dos pesos pesados das empresas em todo o mundo. Tornou-se uma espécie de reserva de mercado desse grande capital, que tem os grandes atletas como seus “garotos-propaganda” de luxo. Creio que os governos preferem que as empresas façam o seu trabalho de promoção de grandes atletas e eventos, colhendo, aqui e ali, dividendos políticos aquando das vitórias dos expoentes em competições onde o país é representado. Num país como o Brasil, a educação é um estorvo para boa parte dos políticos, que gostariam de investir o seu trabalho em setores mais lucrativos.

De que forma o futebol educacional, por exemplo, pode combater preconceitos sociais, tais como religião, nacionalidade, género ou estrato social?

JBF: Há iniciativas esporádicas de investimentos do poder público no desporto educacional, assim como, nos dias atuais, iniciativas de organizações não governamentais sem fins lucrativos. Eu mesmo sou consultor em duas dessas organizações. Uma delas é o Instituto Esporte e Educação e a outra é a Universidade do Futebol. Esta última tem um braço empresarial e outro não governamental.
Nessas duas entidades, os princípios que orientam as suas ações definem o que deve ser o desporto educacional, e aí não importa se se trata de futebol ou de qualquer outro desporto.
No Instituto Esporte e Educação, por exemplo, entre seus princípios norteadores estão a Inclusão e o Respeito à Diversidade. Se o desporto não puder incluir todos, então não é educacional. Se o desporto não consegue lidar com as diferenças, então não é educacional.
Na Universidade do Futebol, as ações são orientadas por três princípios básicos. O primeiro deles é que o futebol deve ser ensinado a todos; a metodologia que orienta esse futebol deve garantir a competência para incluir todos. O segundo é que o futebol deve ensinar bem a todos; porque ensinar de qualquer jeito, ensinar mal, também é uma forma de excluir. E o terceiro é que o futebol, para ser educacional, deve ensinar mais do que a modalidade, deve ensinar para a vida, além do futebol.
O futebol deve ser tão educacional quanto o Português ou a Matemática. Nas aulas de futebol devem ser discutidas as questões de género, de meio ambiente, de religião, etc. O futebol não pode ser blindado, isolado do mundo. O futebol educacional deve conduzir as crianças e os jovens para o mundo, para que se beneficiem das suas virtudes e para que corrijam os seus vícios.

7

8Nesse sentido, que valores do desporto podem (e devem) ser aplicados a outras áreas do nosso quotidiano?

JBF: O futebol, como todas as coisas, possui virtudes e vícios. É fácil apontar as suas virtudes, tais como a coragem, a determinação e a generosidade, entre outras. Assim como os seus vícios: inveja, cinismo, egoísmo e falsidade, entre outros. A prática educacional não pode ignorar os vícios, porque conhecer é uma maneira de superar. Porém, essa prática educacional deve investir na potencialização das virtudes. O desporto individual ou coletivo destaca fortemente virtudes como a generosidade, a solidariedade, a paciência, a determinação, a coragem, a disciplina, etc. Os jogos aplicados nas aulas podem potencializar essas virtudes. Além delas, o desporto também mobiliza intensamente determinadas maneiras de pensar, a cooperação, o conhecimento do próprio corpo, etc. Tudo isso pode ser aprendido quando alguém aprende a prática do desporto. Porém, o sucesso depende da metodologia que orienta esse processo educacional. Uma prática pode mobilizar inúmeras virtudes e conhecimentos, que podem ficar restritos a essa prática, não atingindo outras áreas além do desporto. Todavia, uma metodologia desencadeadora de reflexões, de conscientizações, pode ir além do desporto. Em alguns casos dos nossos trabalhos no Brasil, recorremos a uma metodologia transdisciplinar. Como o prefixo dessa palavra indica, a transdisciplinaridade pode produzir conhecimentos que tenham o poder de atravessar outras disciplinas e ir além da disciplina matriz, no caso, o futebol. Ou seja, aprendendo futebol, uma criança pode aprender mais do que o futebol. Isso porque essas virtudes potencializadas, bem como a maneira de pensar, a mobilização corporal, as ações coletivas, etc., podem chegar ao nível da reflexão e tornarem-se parcialmente conscientes. Esse conhecimento que chega à consciência tem o poder de ir além da prática restrita.

6

5A prática desportiva pode incentivar os jovens a estudar e ajudá-los, inclusive, a ingressar no ensino superior e a procurar um futuro melhor?

JBF: Não vejo que haja uma relação direta entre uma coisa e outra. Um jovem pode ser brilhante no desporto e péssimo nos estudos. Talvez ele se dedique muito ao desporto por ter sido encantado por ele. Mas talvez deixe o estudo de lado por não sentir qualquer atração pelo modo como as matérias são ensinadas na escola. No desporto há algo que ele quis, que ele escolheu. Algo que é praticado num lugar aberto, com razoável liberdade, com escolhas, com amigos, e com extremo prazer e possibilidade de realização. A metodologia tradicional da sala de aula apresenta, de maneira geral, ao jovem, um lugar fechado, imposição de matérias, mau humor, pouca liberdade.
No entanto, a consciência sobre questões fundamentais da vida pode ser adquirida no desporto e levar o jovem a entender que precisará passar pelo sacrifício da sala de aula por causa de um futuro melhor.

Qual a importância do desporto universitário na carreira académica dos estudantes? Considera essencial que as universidades apostem nestas atividades?

JBF: No Brasil, por exemplo, sempre tivemos desporto universitário e isso nunca afetou positivamente a qualidade do desporto do país. Nos Estados Unidos ele é decisivo, até porque o desporto é uma porta de entrada na universidade para jovens de pouco rendimento familiar. Pessoalmente, não acredito que as universidades possam ter uma estrutura esportiva que fomente o desporto de um país ou que colabore com a educação das pessoas através do desporto. O caminho deveria ser outro; talvez políticas públicas adequadas que objetivassem a educação esportiva da população de modo geral.

Que lições podem a liderança e a gestão de pessoas retirar do desporto?

JBF: A gestão do desporto só funciona bem naquilo que diz respeito ao lucro. Temos, no Brasil, uma estrutura do futebol podre, corroída pela corrupção. Apesar disso, o Brasil não para de produzir grandes craques e a nossa seleção continua entre as melhores do mundo. Acho que se a sociedade quiser bons exemplos de gestão e liderança, deve procurá-los fora do desporto. É o contrário: acho que devemos perguntar que lições o desporto pode tirar das boas experiências de algumas entidades fora dele.

Enquanto manifestação do lúdico (uma dimensão do ser humano), de que forma pode o desporto ajudar a compreender melhor outros aspetos da nossa vida?

JBF: Há coisas interessantíssimas no desporto. Mesmo no futebol profissional, muita coisa não se faz só profissionalmente, só por dinheiro. Por exemplo, quando um de nós atende a uma tarefa de trabalho, tal como uma reportagem jornalística, ao seu término não saímos pulando, gritando, chorando. Na última Copa da Europa, terminado o jogo final, em que Portugal derrotou a França, os jogadores portugueses, todos profissionais, alguns milionários, comemoraram como crianças, foram muito além de cumprir uma obrigação profissional. O que vimos foram jogadores se abraçando, chorando, gritando, rolando pelo gramado. O que tem esse desporto que leva as pessoas a esse estado? É o lúdico, é a entrega total. Por mais profissional que seja o futebol, ainda resta o espaço do jogo, ou do lúdico. E é esse lúdico que nos garante a possibilidade da entrega total, do viver por viver, de sentir que verdadeiramente desfrutamos da vida. A sensação de realização é imensurável, é incomparável. Essa entrega talvez seja a melhor das lições do desporto. O desporto ensina que a vida vale a pena.

9

10Por: Ricardo Vieira, coordenador editorial

Artigos Relacionados

Opinião Online

Find more about Weather in Lisboa, PO

Caderno Especial

  • Captura de ecrã 2017-07-04, às 15 Caderno Especial – junho 2017

    No Caderno Especial de junho, para além das habituais novidades do Ensino Superior, publicamos um novo painel sobre Educação, onde colocamos algumas questões a vários players da nossa sociedade, desta vez focadas na urgência das competências digitais nas universidades. A não perder também a entrevista a Francisco Goiana da Silva, líder do Global Shapers Lisbon…

Revista Pessoal

  • CapaPessoal167 Revista Pessoal – maio/junho nº 167

    A Quarta Revolução Industrial – mais conhecida como Indústria 4.0 – marca a atualidade dos mercados laborais de todo o mundo, mas será este processo evolutivo e natural? Esta nova e iminente abordagem, que pretende potenciar as oportunidades proporcionadas pelas tecnologias de informação, comunicação e eletrónica junto das empresas e setor industrial, ganha especial destaque…

Sondagem/Quiz RH

Liderança e Amor terão alguma coisa em comum?

Ver Resultados

Loading ... Loading ...

Colecção Find Out

RHtv