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“Mudar o chip”

Se quisesse resumir numa frase o que implica mudar de país, diria que o essencial é “mudar o chip”.
Mais do que as circunstâncias pessoais e/ou profissionais que levam alguém a mudar de país, a adaptação vai depender de “zerar” muitas coisas que dávamos como adquiridas no país de origem e de “mudar o seu chip” para o país de destino. Depois de ter chegado há um ano a Maputo, posso dizer que mudar é muito estimulante, é reaprender as regras, obriga a estar mais atento e a questionar se estamos mesmo a fazer a coisa certa. Começa por criar uma insegurança que rapidamente se transforma em adrenalina, porque essa aprendizagem, com a bagagem que já trazemos, gera ideias e oportunidades e estimula a criatividade. É como um restart e isso é muito entusiasmante.
Esta mudança não significa abdicar dos nossos valores, convicções, ambições e sobretudo das nossas referências; estas são e devem continuar a ser as nossas, imutáveis. Mantê-las, aliás, é uma excelente forma de acrescentar valor (pessoal e profissional) num contexto necessariamente diferente. É, também, uma boa maneira de não perder as ligações à origem, porque muitas vezes a mudança é temporária, não é definitiva.
“Mudar o chip” é, sobretudo, assumir que, estando em Moçambique, não posso “teletransportar” a minha realidade anterior de Lisboa para Maputo, porque isso não é, simplesmente, possível; esta decisão deve ser consciente e é um passo que deve ser dado o mais rápido possível porque, caso contrário, gera uma ansiedade que dificulta todas as outras adaptações que é preciso fazer. Além disso, abre a mente para absorver as coisas novas sem a visão cínica de quem “tem tudo na Europa”. Por exemplo, compram-se muitas coisas na rua (porventura menos assético do que no supermercado), mas as frutas e os legumes têm um sabor fantástico, já para não falar da simpatia desarmante dos vendedores e das vendedoras, que deixam bem-disposto o mais sisudo dos compradores.
Se a mudança for voluntária, como é o meu caso, que decidi por razões familiares vir viver para Maputo, esta “mudança de chip” não é difícil, porque rapidamente se percebe o que é essencial. E não é essencial ter prateleiras asséticas nem o último grito da tecnologia ou tão pouco corredores de lojas de roupa para ir passear aos domingos à tarde.
Moçambique é um país que muito raramente alguém diz que não gostou de cá estar. É um país de que facilmente se gosta, porque tudo é mais simples, mais próximo, tem menos salamaleques, as pessoas juntam-se muito mais para estar juntas, almoçar e jantar, passear. Fazer bons amigos e passar tempo, mesmo tempo, com eles é uma das coisas muito compensadoras.
Na área onde trabalho, comunicação, mas também noutras áreas, o que vejo são lacunas enormes de conhecimento, está muito por fazer, o que não é de estranhar num jovem país como este, mas vejo uma grande vontade, mesmo uma ânsia, de conhecer, de aprender, o que é a primeira condição para progredir.
Na perspetiva profissional, Moçambique é desafiante sob vários pontos de vista, mas não é menor o desafio para nós: o desafio de compreender o que é importante para os moçambicanos, termos a humildade de aprender com eles e, com as nossas competências, contribuir para o seu desenvolvimento.

Por: Fernanda Pargana, coordenadora de conteúdos especiais no Grupo Soico

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