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Opinião online, Tecnologias de Informação

Trabalho e cidadania no mundo hipermoderno

Nas sociedades hipermodernas, o trabalho constitui um elemento determinante da cidadania e é através do trabalho que cada ser humano exprime a sua plena humanidade e afirma a “expressão da dignidade de si próprio e das permutas sociais”.
Ao contrário de épocas anteriores, em que o trabalho era considerado uma atividade própria das “classes inferiores”, nas sociedades hipermodernas o exercício regular de uma atividade profissional converteu-se no mais importante símbolo de integração e de estatuto social.
De facto, é no trabalho, e pelo trabalho, que cada pessoa alcança a plenitude do seu sentido de cidadania; e é pela sua ausência, ou na sua possível precariedade, que cada indivíduo pode tender a desatar os laços de pertença e de identidade em relação à organização social em que se insere.
Por isso, as questões sobre as formas de organização do trabalho e os tipos de vínculo que os indivíduos têm (ou não têm) em relação ao “seu” trabalho, ultrapassam em muito a esfera das questões económicas, convertendo-se numa questão essencial de toda a organização social.
Se as conceções sobre o trabalho, as formas de organização do trabalho e, no limite, a simples existência, ou não, de trabalho, estão hoje do cerne de algumas das mais prementes questões nos domínios da política, da sociologia e da gestão, elas constituem, por maioria de razão, uma preocupação maior para os responsáveis pela gestão das pessoas nas organizações, para quem “nada do que é humano lhes é estranho”.
A previsível automatização progressiva de um número cada vez maior de postos de trabalho e de empregos e o próprio desaparecimento de algumas profissões, como consequência da expansão e alargamento da “era digital”, e o consequente possível contingente de desempregados que isso pode acarretar, exigem que se comece, desde já, a delinear programas de intervenção para promover, nas pessoas, o desenvolvimento de algumas das competências que são críticas para enfrentar os desafios da “era digital”, tais como a literacia digital, a conectividade, o pensamento crítico e o desenvolvimento de capacidades cognitivas complexas, entre outras.
O desafio é imenso, sobretudo em sociedades onde os níveis de qualificações e de domínio de competências de maior complexidade cognitiva apresentam ainda um significativo gap em relação ao que é requerido para se conseguir “progredir no caos” da nova ordem social e profissional induzida pela “revolução digital”.
Neste tipo de sociedades, se a onda da digitalização avançar, como se prevê, a ritmo acelerado, atingindo prioritária e maioritariamente as funções menos diferenciadas e mais repetitivas, as pessoas que desempenham atualmente essas funções menos qualificadas correm sérios riscos de serem atiradas para o desemprego e, o que ainda pode ser mais grave, de terem muita dificuldade em reentrar num mercado de trabalho que vai justamente exigir das pessoas maior nível de qualificações e domínio de competências de níveis superiores de complexidade.
Essas pessoas ficarão, assim, despojadas de uma componente essencial da sua identidade como cidadãos, num mundo em que, ao contrário do que acontecia nas sociedades tradicionais, “quanto mais importante se é, mais se trabalha”.
Por isso, reinventar uma nova conceção do trabalho, criativa, colaborativa e libertadora, e expandi-la e enraizá-la em culturas organizacionais renovadas, é não só uma questão essencial ao progresso e sustentabilidade das organizações do futuro, como é um verdadeiro imperativo civilizacional das sociedades hipermodernas.

Por: Mário Ceitil, presidente da APG

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