Crónicas

Voando ou fazendo cera

Alguns dos meus amigos dizem que sou como as abelhas, ou estou “a voar ou a fazer cera”, ou seja, só não estou em trânsito para algum lugar nos poucos momentos de lazer.

Tenho 35 anos de carreira como consultor de RH exercida em 25 países (só no ano passado trabalhei em nove). Residi e fui presidente ou diretor de consultorias internacionais (PMic, Mercer e Hay) em Portugal, Alemanha e Brasil. Também fui professor universitário e diretor académico em vários países da Europa, África e América do Sul, e isso obriga-me a viajar com muita frequência há vários anos e a contactar com realidades culturais e geográficas muito diversas.
Com este percurso profissional tão intenso e disperso só poderia ter uma vida familiar peculiar, sou divorciado pela quarta vez, e as minhas ex esposas (com quem mantenho amizade) também tem origens geográficas diversas, uma é europeia, outra é africana e duas outras são sul americanas. O que mais me orgulho na minha vida pessoal é a educação e a forte relação afetiva que sempre consegui manter com as minhas filhas apesar dos longos períodos de ausência de casa. Julgo que mesmo nestas circunstâncias temos uma intimidade maior do que a maioria dos pais que convivem na mesma casa com os filhos.
Falo diariamente durante longos períodos com as minhas filhas e netas por Skype, conheço detalhadamente o dia-a-dia delas, quando eram adolescentes nunca faltei a uma reunião de pais, mesmo que para isso tivesse de fazer a viagem Beijing / Lisboa / Beijing em menos de 36 horas, e a nossa proximidade é tão grande que uma das minhas filhas já me telefonou para São Paulo para a ajudar a estacionar o carro em Lisboa.
Claro que para ser “abelha” é preciso um certo desapego a alguns rituais domésticos, manter uma saúde de “ferro”, gostar de desafios profissionais exigentes já que no mercado global se concorre com os melhores do mundo, e preferir viver relações pessoais mais intensas e talvez menos duradouras. Mas confesso que, depois de mais de três décadas nesta vida, já não me imagino a viver num só país, sem explorar todos os anos novas oportunidades em contextos diferentes.
A conclusão que mais me surpreende depois desta significativa experiência de vida e profissional intercultural é ter chegado à conclusão de que as empresas mais eficazes, produtivas e rentáveis são as empresas com gestão mais padronizada (multinacionais) e não aquelas mais próximas das culturas locais, ao contrário do que os mais humanistas acreditam. Na realidade as empresas dividem-se apenas em bem e mal geridas, e as bem geridas são muito parecidas umas com as outras, independentemente do país onde estão.
Eu próprio sou exemplo disso, implemento um modelo da minha autoria de Maximização da Produtividade, Rentabilidade e Otimização da Eficácia Organizacional em diversos países sempre com o mesmo resultado. Por exemplo, quando o implementei na GM em 16 países da Europa (a maior empresa do mundo, com 700 000 empregados) e numa pedreira de uma cidade do interior de São Paulo com apenas 120 empregados, obtivemos o mesmo resultado de melhoria do NOI em 30% e em alguns casos melhoria da produtividade individual em 400%, com um coeficiente de confiança de 97%.

Por: Pedro M. Martins, Chairman da PM International Consulting, Dean da EABS – Euro American Business School, Residente atualmente em São Paulo / Brasil

Crónica publicada na Revista Pessoal

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