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“Talent de bien faire”

No túmulo do Infante D. Henrique, por entre os símbolos das Armas do Reino, da Ordem da Jarreteira, a mais antiga Ordem de Cavalaria de Inglaterra e da Ordem de Cristo, há uma frase em francês que diz: Talent de bien faire. A história diz que este Homem abriu as portas da Idade Moderna e associam isso à descoberta do caminho marítimo para a Índia em 1498. Uma Idade Moderna porque era o tempo das ideias e o Infante porque os Descobrimentos existiram primeiro na sua cabeça, foram uma ideia sua, mas a que acrescentou o concretizar, o talento do fazer bem. Mais de cinco séculos depois, o mundo da gestão em que vivemos adotou este bien faire e chamou-lhe Competência, sendo: desde as motivações, atitudes, comportamentos, valores, capacidades, informação, conhecimento e tudo o que permite um elevado desempenho. A vida do Infante foi isso, dos 14 anos quando ganhou casa, até à sua morte aos 66 anos. O seu trabalho foi a conceção e execução de uma obra, uma Empresa, por acaso a maior que alguma vez conseguimos fazer. Juntou ideias, ciência, tecnologia, investigação, diversidade, escolas, academias de formação, liderança de homens, dinheiro e decidiu.
Conta-se que o pai queria armar cavaleiros os seus três filhos, organizando um concurso, umas provas, e fazer uma grande festa, mas o Infante, convencendo os seus dois irmãos, recusou a ideia e propôs-lhe a tomada de Ceuta. Queria ser cavaleiro, mas através de obra feita e não por ser filho de rei. A mãe tinha-o educado bem e ensinara-lhe que o Homem é a sua Obra. Esta ideia da obra lembra-me que por volta dos meus trinta e cinco anos fui entrevistado por um caça-cabeças suíço e para uma multinacional americana. A primeira pergunta que lançou foi: o que é que já fizeste? E eu, à boa maneira portuguesa, desfiei a conta do meu rosário, falando-lhe que já tinha sido técnico disto, chefe e diretor daquilo, enfim, os meus cargos e títulos. Não é isso, disse-me ele, obra, obra! Ah… percebo! Disse-lhe finalmente o que ele queria ouvir… Fiz a primeira cadeia de Supermercados, a primeira Central Termoelétrica a Carvão…
Percebi mais tarde a profundidade daquilo que o suíço queria, anos depois aparecia sobre a forma da Gestão Estratégica de RH e a parceria no negócio. Percebo agora o nosso erro atual, tal como acontece na economia, perdemos a perspetiva histórica das coisas, que obra e competência são coisas de sempre. Que já na Idade Média, na construção das grandes catedrais, os mestres das Oficinas, que eram verdadeiras escolas, já passavam um passaporte de competências aos seus aprendizes, faziam deles oficiais de um ofício e eles iam por essa Europa trabalhar com outros mestres. No passaporte dizia-se apenas o que eles tinham feito, o que sabiam fazer. Essas competências aplicavam-se umas vezes a um ou outro tipo de arquitetura; aqui com uma tecnologia mais rudimentar, ali com uma mais avançada, algumas vezes manual, outras vezes mecânica, agora digital; umas vezes organizados por processos e outras em rede. Mas quer no espaço, quer no tempo em que o trabalho acontecia, o talent de bien faire era a base de tudo e, mesmo trabalhando uma só pedra de cada vez, cada um tinha a consciência de que se estava a construir uma catedral.
Falta-nos a perspetiva histórica em quase tudo, do desenvolvimento do trabalho ao talento humano e até as piores notas do ensino secundário no último ano foram na disciplina de História. As pessoas estão a crescer como árvores sem raiz…

Por: Jorge Marques

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