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A propósito de Millennials… atenção a Gasset e à fatalidade porosa

Ortega y Gasset considerou fundamental para a mudança da história a existência de gerações: “Há anos que eu prego aos historiadores que o conceito de geração é o mais importante em história”. Quando nos fala em contemporaneidade de gerações quer referir-se à existência, em simultâneo, de três gerações: a geração presente, a geração passada e a geração futura, em concreto, Gasset refere-se aos jovens, aos homens maduros e aos velhos. São estas gerações a razão de ser das referidas mudanças históricas e são elas que fundamentam o que Ortega designou como “anacronismo essencial da história”. As clivagens geracionais seriam condição necessária para a evolução da própria Humanidade. Não é possível evoluir-se a partir do que é igual, uniforme. Não evoluiríamos, não faríamos nenhuma “inovação radical” se todas as gerações coetêneas fossem contemporâneas. Esta abordagem de gerações transporta a definição do eu para o seu tempo histórico, não implicando a subsunção daquele a este tempo histórico, mas sim o recurso à sua circunstância para a sua completa definição. Porque o tempo histórico em que cada Homem se situa é importante para o conhecimento de si próprio, Ortega considera fundamental a integração de cada Homem numa geração, com práticas, interesses, e sentimentos comuns, “um odor peculiar”, estes homens são coetâneos, fazem parte de uma mesma geração. Podemos definir o Homem a partir da geração a que pertence, mas não só, isto porque cada Homem é uma entidade distinta, detentora de uma força vital única que pode, no limite, fazer com que um homem maduro ao invés de passar para a geração seguinte, se detenha no presente como resultado de um trabalho de atualização permanente, um trabalho que não o deixa ficar arcaico. A juventude é uma condição que o Homem pode manter numa luta permanente contra a decadência, numa luta contra a fatalidade de pertencer a uma geração. Ortega considera fatal o facto de se pertencer a uma determinada geração, contudo, essa fatalidade tem características porosas que permitem ao Homem deixar passar, através dos poros dessa fatal prisão geracional, a atualidade da geração jovem. Para Ortega, “Tudo na vida é contaminação”, a saúde, a doença, e também a mocidade. O homem maduro pode prolongar a sua juventude contrariando a tendência da história que torna os homens, pouco a pouco, arcaicos. Se, por um lado, podemos definir o Homem a partir da sua geração, por outro, não podemos deixar de nos centrar nele próprio e nas suas características particulares, que, no limite, podem comprometer a fatalidade a que a sua circunstância geracional o tinha votado. Ortega é um idealista peculiar na medida em que entende o Homem como sendo ele próprio e também a sua circunstância, contudo, parece decorrer do seu pensamento uma prevalência do Homem face à sua circunstância, essa prevalência pode perceber-se através da porosidade da fatalidade de pertencer a uma geração, porosidade que lhe permite uma atualização constante numa luta fatal contra o envelhecimento, uma luta contra a sua circunstância. O eu parece lutar contra a fatalidade de pertencer a uma determinada geração. Admite Ortega que o resultado dessa luta possa manter o homem no presente, ou não passar à geração seguinte, admite que o eu e a sua força, possam ganhar esta batalha. Neste caso ganha o puro idealismo.

Por: Catarina Guerra Barosa, diretora de conteúdos da Tema Central

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