5
Opinião online

Queremos o futuro, nós seres cheios de passado

Já há alguns anos li um livro que não me deixou indiferente perante a necessidade de olhar para o futuro sempre com um pé no passado. Marc Ferro, autor do livro Ressentimento na História, é um historiador francês que fez parte da 3.ª geração da escola dos Annales. Esta escola resulta de um movimento que nasce, em 1929, ligado ao jornal francês Annales d’ histoire économique et sociale. Compreender civilizações e mentalidades era o grande objetivo da escola dos Annales e também de Marc Ferro.
No livro referido, podemos perceber que há uma preocupação de ir além do mero relato de acontecimentos, isto é, o autor procura encontrar na história, vista como processo de grande duração, uma justificação para um conjunto de conflitos que ao longo dos séculos foram a causa de tanto sofrimento. Essa justificação, entende o autor, pode ter uma origem psicológica e ele vai encontrá-la num conjunto de ressentimentos que se foram alojando nas consciências das sociedades, sendo elas influenciadas nas suas decisões dentro e fora do seu espaço territorial, por esses ressentimentos.
Em história parece haver sempre um ajuste de contas por fazer, contas por saldar. É como se a história se contasse em espiral num movimento de forças antagónicas. O conhecimento profundo das causas implica recuar no tempo alguns séculos. Por isso, para compreender os homens e as sociedades, não é suficiente conhecer o relato recente dos factos históricos, é necessário puxar o cordel do tempo e recuar alguns séculos.
Logo na introdução do livro, são nomeados três acontecimentos de relevância mundial cuja causa está no já referido ressentimento: os atentados de Madrid em 2004, onde Espanha foi um alvo da Al-qaeda, como refere o autor :” a humilhação de que o islão é vítima remonta à expulsão dos mouros de Espanha em 1492”; os atentados de Lousanne em 1973, perpetrados por arménios; a ferida aberta era a da traição em resultado do não cumprimento de uma promessa feita pelos vencedores da Primeira Guerra Mundial ao povo da Arménia. Tinha sido prometida uma Arménia independente em 1919, promessa que não foi cumprida e esteve na origem dos citados atentados; o Golpe de Estado de maio de 1958, que teve na sua génese o ressentimento dos militares que combateram nas trincheiras deixando para trás as mulheres, o trabalho e uma vida, sem terem sentido a gratidão do seu Estado. Neste caso é a “incompreensão e ingratidão da retaguarda” que aciona o gatilho.
Marc Ferro não tem dúvidas, “Estas situações, no seu conjunto, formulam a maneira como nasce e se desenvolve o ressentimento” e permitem-nos dizer que “A experiência de voltar a viver a ferida do passado é mais forte do que a vontade de a esquecer” e é também, por isso, que não podemos dissociar o passado do presente porque aquele é mais presente do que o próprio presente.
É por isso que penso que o futuro, embora estando à nossa frente, e sendo construído por nós, obriga-nos a este esforço de compreensão para pelo menos, evitarmos correr os mesmos erros. Penso nisto quando vejo Trump e quando vejo os movimentos populistas a crescerem na Europa. Vejo ressentimento que a história ainda não curou.

Por: Catarina Guerra Barosa, diretora de conteúdos da Tema Central

Artigos Relacionados

Opinião Online

Find more about Weather in Lisboa, PO

Caderno Especial

  • Captura de ecrã 2017-08-11, às 12 Caderno Especial – junho 2017

    No Caderno Especial de julho, para além das habituais notícias sobre o Ensino Superior, dedicamos um painel de debate à temática “Formação de Adultos e Mercado de Trabalho”, onde colocamos algumas questões a várias universidades sobre o que tem sido feito no âmbito da dicotomia “Oferta Formativa e Empregabilidade”. A não perder também o artigo…

Revista Pessoal

  • Capa Pessoal Revista Pessoal – julho/agosto nº 168

    Na edição de julho/agosto da revista Pessoal, três temáticas ocupam o cerne do debate. No dossier dedicado à temática Wellness, analisamos a evolução do trabalho, que passou de uma base predominantemente de força física para a ação mental, exercida à secretária, ao volante ou na consola de uma máquina, e de que forma essa alteração despoletou…

Sondagem/Quiz RH

Liderança e Amor terão alguma coisa em comum?

Ver Resultados

Loading ... Loading ...

Colecção Find Out

RHtv