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Opinião online

A propósito de bem-estar, trabalho e labor

“O trabalho das nossas mãos, em contraposição com o labor do nosso corpo – o homo faber que “faz” e literalmente “trabalha sobre” os materiais, em oposição ao animal laborans que labora e “se mistura com” eles – fabrica a infinita variedade de coisas cuja soma total constitui o artifício humano”. Hannah Arendt, in Condição Humana.
Nesta passagem, da obra de Hannah Arendt, temos, no essencial, aquilo que define todo o seu pensamento sobre os conceitos de trabalho e de labor. Podemos, a partir daqui, perceber que estamos a falar de conceitos completamente distintos, não obstante, ambos estarem relacionados com o Homem e com a sua dupla capacidade. Esta dupla capacidade, a de trabalhar e de laborar, faz dele um animal único, diferente de todos os restantes animais que vivem na Terra.
A generalidade dos animais, que vivem na Terra, tem como desígnio, máximo e último, a sobrevivência, o Homem pode ir mais além e criar, construir um mundo com características de durabilidade, alguma coisa que perdure para além dele. A função do Homem na Terra não deve esgotar-se na simples sobrevivência, isto é, na produção de produtos para consumo imediato e instantâneo. Essa produção para consumo é o que Hannah Arendt identifica como labor.
Teremos dois tipos de Homem: aquele que labora e aquele que trabalha, sendo que estas duas faculdades se complementam. O Homem deve ser um animal laborans na exata e estrita medida da sua subsistência. Limitando, por isso, a sua produção ao que necessita para viver sem comprometer a sua liberdade e a sua felicidade. Deve, complementarmente, ser um homo faber, o que fabrica. Através desta sua faculdade, complementar, pode distinguir-se dos restantes animais e, nessa medida, criar, fabricar objetos que não se destinam a ser consumidos, nem à sua subsistência enquanto ser vivo, mas que se destinam a que a sua morada original seja absolutamente preservada e desenvolvida com vista à sua realização enquanto ser livre que procura ser feliz.
O trabalho surge assim em nome do mundo, este mundo é uma construção artificial que o Homem desenvolve na sua morada original que é a Terra. Nessa tarefa de homo faber ele vai pôr em prática a natureza instrumental do trabalho com o fim último de construir um mundo que dure. Esta durabilidade pode criar no Homem uma ilusão de imortalidade na medida em que os objetos que fabrica perduram para além da sua própria vida.
Hannah Arendt refere que a fabricação, que é o trabalho desenvolvido pelo homo faber, consiste na reificação. Subjacente a este conceito de reificar, está a solidez inerente a todas as coisas. O Homem tem ao seu alcance, quase como Deus, poder construir o mundo, enquanto Deus o faz a partir do nada, o Homem fá-lo a partir dos materiais da natureza.
Se falarmos de labor teremos de falar, já não do homo faber, daquele que fabrica e reifica, mas sim do animal laborans que produz, que também se socorre da natureza, não para a transformar em objetos duráveis, mas para a consumir, transformando-a em produtos de consumo instantâneo, que que criam outras necessidades e o obrigam a uma produção em série de produtos para consumir.
O trabalho com o sentido que lhe foi dado por Hannah Arendt obrigaria o Homem a colocar-se algumas questões, não de carácter existencial mas de sobrevivência. Isto é, o Homem deve regressar à Terra e, enquanto homo faber, deve olhar a sua morada original a partir daqui, e começar a fabricar (neste momento já não a partir da natureza, mas a partir das toneladas de produtos que já produziu) outros produtos que renovem o ciclo de vida. Podemos falar em reciclar e produzir sustentavelmente.
Se isso acontecer, e o Homem se aperceber que não tem outro lugar para viver que não a Terra, deverá dedicar-se a corrigir o mundo que criou. Reciclar em massa, criar uma sociedade recicladora, e desenvolver a figura do homo reciclador, como sendo o que de dedica a reutilizar, a aumentar o ciclo de vida dos produtos e encontrar aí, nessa atividade, fundamento económico e existencial.
A reciclagem tem subjacente a ideia de regresso, de reencontro, de aumento de duração, e isso acrescenta, também, ao Homem prazer e felicidade, pode trazer-lhe à memória o seu desejo original de fabricante.
A liberdade decorre da libertação gradual da vontade incessante de consumir um objeto novo. Essa liberdade traduz-se também em tempo livre, não já para consumir, para reciclar. Felicidade e liberdade são duas faces da mesma moeda, tal como laborar e reciclar o podem ser.

Por: Catarina Guerra Barosa, diretora de conteúdos da Tema Central

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