3
Opinião online

O contributo das Narrativas organizacionais para a Mudança e Aprendizagem

A história da narrativa na pesquisa organizacional é relativamente recente. Os primeiros estudos que se conhecem e se centram sobre esta metodologia da pesquisa na área específica das organizações e da teoria da gestão, datam dos anos 70 (Mitroff e Kilmann, 1976). Estes estudos tinham como fundamento metodológico que as histórias, os mitos, as sagas e outras formas de narrativa, em vez de, como ocorria na maior parte das vezes, serem subestimadas ou votadas ao abandono, poderiam, quando devidamente trabalhadas, constituir de facto uma fonte valiosa de dados para a pesquisa nas organizações.
Em termos do contributo para a mudança, as narrativas podem ser entendidas como drivers preciosos para os diagnósticos que visem captar informações acerca de normas e valores organizacionais, como ferramentas de gestão para envolver as pessoas no processo da mudança, e como meios para ajudar as pessoas a visionar realidades futuras potenciais das interpretações criativas do passado. Podem, também, ser elos de ligação de situações do passado, do presente e do futuro: tais histórias seriam capazes de produzir condições liminares entre realidades atuais e as possibilidades futuras, construindo uma ponte entre a realidade que ajuda as pessoas a lidar com a ambiguidade e a mudança, realidades incontornáveis do presente, e, assim, ajudar a criar novas condições estruturais.
As aproximações narrativas contribuíram também para compreender como os significados particulares atribuídos às mudanças organizacionais se tornam dominantes. As histórias que circulam culturalmente através das organizações, foram vistas como meios para fornecer os guiões através dos quais se possa compreender a dinâmica de diferentes culturas organizacionais.
Para criar o diálogo, as histórias foram empregues também como formas da intervenção do desenvolvimento organizacional, com o uso de workshops de contar histórias, as oficinas que extraem histórias contrárias, a fim de desafiar as formas tradicionais e antiquadas de trabalhar (Abma 2000).
Uma outra contribuição da pesquisa narrativa para o estudo da mudança foi, por exemplo, uma análise feita para compreender como é que as pessoas, nas organizações, constroem as suas próprias narrativas sobre a mudança que, em muitas circunstâncias, podem ser incongruentes com as linhas/guias das histórias promulgadas pela gestão do topo (Vaara, 2002). Esta perspetiva sugere, então, que os significados associados à mudança não são de forma alguma rígidos ou determinados, mas antes que as pessoas desenvolvem reflexivamente as suas próprias interpretações e reações à mudança. A utilização estratégica das narrativas pode mesmo reorientar projetos aparentemente falhados de mudança, podendo ser renarrados como bem-sucedidos, e vice-versa. Foi também demonstrado que as histórias podem servir como meios para fornecer a legitimidade para as mudanças organizacionais, que poderiam de outra forma ter sido consideradas ilegítimas, irracionais ou desnecessárias. Mais, as histórias podem fornecer, por vezes, álibis para os gestores se exonerarem da responsabilidade dos esforços falhados em processos de mudança ou, até mesmo, para justificar a criação de novas organizações e convencer os investidores a apostar nelas (O’Connor, 2002).
As histórias podem também constituir ferramentas eficazes de aprendizagem, uma vez que elas transmitem crenças, na medida em que se entende a experiência como uma fonte credível de conhecimento, transmitem recordações, porque nos envolvem nas ações e intenções, e são também uma forma de entretenimento, porque nos convidam a refletir e a imaginar. A história desenvolve “a paisagem da ação” e a “paisagem da consciência”. Para White (1981), o termo “narrativa” vem do latim gnarus – que significa “conhecer, travar conhecimento com” –, portanto, se alguém conhece, então é capaz de produzir uma narrativa daquilo que conhece. Deste modo, a narrativa é a forma em que o conhecimento vive encarnado. “Pensamento científico e pensamento narrativo são duas formas pelas quais se organizam e se gerem os conhecimentos do mundo essencial lógico”.

Por: Damasceno Dias, vice-presidente da APG

Artigos Relacionados

Opinião Online

Find more about Weather in Lisboa, PO

Aprender Magazine

  • Captura de ecrã 2017-10-11, às 01.21.50 Aprender Magazine – Diretório de Empresas de Formação

    Considerando que o mundo profissional está, hoje em dia, em constante mudança, é fundamental que os recém-diplomados e profissionais de todos os setores desenvolvam continuamente as suas competências, numa lógica de aprendizagem ao longo da vida. Num mundo global fortemente concorrencial…

Revista Pessoal

  • Capa Pessoal Revista Pessoal – setembro/outubro nº 169

    Na edição mais recente da revista Pessoal damos destaque ao 50.º Encontro Nacional da APG – Associação Portuguesa de Gestão das Pessoas, que se realiza já no próximo dia 16 de novembro, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. “Back to People: A Rutura de Paradigmas na Gestão das Pessoas” é o tema central do evento que ganha especial…

Sondagem/Quiz RH

Liderança e Amor terão alguma coisa em comum?

Ver Resultados

Loading ... Loading ...

Colecção Find Out

RHtv