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Um jogo de heróis

É preciso começar a garantir que a retórica da gestão coincide com a realidade. O mundo vive entre fogos cruzados, afirmações heroicas, apelos à ordem e regulação, ofertas de segurança, dramatização, lamentos e teatros do bem e do mal. É natural que em toda esta complexidade, os seus atores representem também um papel semelhante e adequado às circunstâncias. Mas certezas, isso não há!

Quando trazemos para o nosso palco a ideia dos heróis da gestão e da liderança, isso pode ser confuso. Nós começamos por não saber se esse ato pertence a quem sabe, ao especialista, a quem decide, ao chefe ou ao líder propriamente dito, ou seja, aquele que assume as responsabilidades, une e mobiliza as pessoas ou aquele que é apenas um bom ator? E porque o que parece é, somos levados a pensar que estamos em tempos épicos, que o poder em geral é bélico, disruptivo, que é uma palavra que entrou na moda e soa a uma espécie de revolução envergonhada.

Também porque a paisagem do poder, da liderança se quisermos, não é determinada pela exceção, ela é até pouco excitante, desanimadora para os criativos e não é definitivamente representada por heróis. Os nossos heróis da liderança e da gestão, pelo menos nos últimos dez anos, mas não só, tinham pés de barro e não saíram heroicamente do terreno da luta. A própria ideia de vitória e de derrota já não é sequer a regra, porque apesar de todas as encenações, acabámos por entrar naquilo a que chamam um período pós-heroico, um tempo mais de acordos do que alternativas. A nossa crise de poder e de liderança fundamenta-se muito num tempo onde já não há acordos absolutos, tudo é pouco determinado e seguro.

Eu penso que perdemos uma oportunidade, qualquer coisa parecida com as discussões que tivemos à volta da motivação. Durante anos tudo era motivação e acabou-se na ideia de que cada um tem de se motivar a si próprio, que isso vem de dentro e não de fora. Creio que vai acontecer o mesmo com a liderança. Vamos chegar à conclusão de que a liderança vai ter de ser passada a cada um, que também isso está dentro e não fora. Como dizia o neurocientista Adam Kampff, que esteve entre nós, “já não precisamos de mais dados, precisamos de ideias melhores”. Daí que seja urgente conceber tudo de novo, mas em profundidade. Fico estarrecido com alguns discursos, que de novidade têm apenas os abundantes vocábulos ingleses espalhados pela oralidade. Precisamos aprender a dar-nos bem com o futuro e substituir os modelos por aquilo que parece inverosímil. Fazer aquilo em que acreditamos é fácil, ir para além disso é um projeto desafiador. O novo papel é fazer aquilo que as máquinas não podem fazer, gerar criadores e não criaturas. O fim dos heróis e das formas absolutas vai coincidir com o fim do modelo de ordem social que foi orientado para o consenso e centralização.

Devemos ter a consciência que nesta complexidade: o saber é frágil e sem certezas; que construir baseado nesse saber já não é seguro; que saber e poder são facilmente contestados; que agora todos julgam; que a nossa convicção não é evidente para os outros. Então o papel da liderança neste tempo de desacordos, desconfiança, neutralização e não configuração, vai no sentido de fazer o impossível e não de criar entusiasmos irrealistas. A finalidade é manter o nível de compromisso sempre e cada vez mais elevado.

Pode parecer que este é o momento e terreno fértil para o aparecimento de heróis, na confusão até pode funcionar, mas o depois será uma grande desilusão…

Por: Jorge Marques

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