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Vontade de Poder

A “Vontade de Poder” é um conceito de Nietzsche e sobre o qual vale a pena refletir. Dentro dos nossos arquétipos culturais, essa vontade é assim uma espécie de “Pecado Original” que herdámos dos pais da humanidade – Eva e Adão. Trata-se de uma herança e não de uma escolha, e potencialmente todos nascemos com essa “Vontade de Poder”. Na verdade, quem primeiro sentiu esta vontade foi Eva, a mulher; Adão apenas a seguiu. O ato contínuo foi que o homem retirou esse poder à mulher e ela cedeu. A esta distância temos de reconhecer que o homem exerceu mal esta tarefa. Desgastou-se na dualidade entre o Bem e o Mal, entre o Mandar e o Obedecer, e esqueceu-se do essencial. Neste exercício baralhou as mãos e inverteu o princípio de que o Bem favorece o crescimento do poder e o Mal o diminui.

A “Vontade de Poder”, a que se chamou “Pecado Original”, era afinal uma outra coisa, era o terreno fértil onde deviam crescer todos os valores e estes seriam transformados em diferentes formas de concretização e evolução dessa vontade. Isto porque a “Vontade de Poder”, quando exercida pela mulher, ia no sentido de uma criação que se baseava na avaliação, no princípio de que “Criar é Avaliar”! A “Vontade de Poder” não é um jogo de contrários, mas é diferente da avaliação do que já aconteceu, já passou. Avaliar não é julgar o passado, mas criar alguma outra coisa diferente e melhor para o futuro, porque a raiz do comportamento humano é muito mais do que a simples vontade de sobreviver.

A ideia do “Mandar e Obedecer” que se seguiu é uma prática contranatura, porque quer uma, quer outra, tem de ser assumida e aceite, não podem ser imposição ou submissão. São um jogo de papéis em que num tempo se está a mandar, mas a seguir pode estar-se a obedecer. Tem de haver liberdade dos dois lados. Com o tempo, fomos alimentando pressupostos sem base e até nos socorremos da sabedoria popular que dizia “não sirvas a quem já serviu”, quando isso era apenas um golpe da cultura senhorial para conservar o poder.

Se aceitarmos a ideia de que a “Vontade de Poder” faz parte da natureza humana, então a possibilidade de que todos a possam exercer tem também de estar presente. O mesmo se deve passar no que respeita à obediência. Mais, o exercício da liderança aprende-se quando estamos do lado da obediência-livre e esta aprende-se quando estamos a liderar com vontade. Para aprender precisamos de sentir as duas situações, porque é com a resultante dessas emoções que nos permitimos chegar à ideia de que “Avaliar é Criar”. É como vermo-nos ao espelho, mas no desempenho do outro.

Os conceitos têm sido fabricados sempre do mesmo lado, porque do que se trata, efetivamente, é que por um lado aprendemos a obedecer, mas para a seguir desobedecer, esse é o verdadeiro contraponto. Criar é isso, é fazer diferente, e a liderança só pode ser um ato de criação. Liderar é desobedecer e essa foi sempre a maior alavanca do progresso e onde se criaram pequenas e grandes coisas. A liderança é a representação destes papéis contrários, mas para os tornar complementares.

A vida do Homem pode decorrer entre o “Mandar e Obedecer”, mas é um jogo virtual, aparente, serve apenas de guarda aos estatutos. Pode até ser uma moda, uma mistura do Fake-Leader com o Smart-Leader? Não sei se é disso que precisamos!

A minha opinião é a do regresso à ideia original de Eva, a primeira mulher, para que o homem possa, por um tempo, aprender o papel do obedecer. Depois se verá se aprendemos a lição e se podemos avançar para a igualdade… Não esquecer, vontade é sempre futuro.

Por: Jorge Marques

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