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Uma teoria das virtudes para o nosso tempo, para inspirar as nossas lideranças?

Na sua obra Tras la Virtud, Alasdair Macintyre faz um retrato do conflito moral que o mundo contemporâneo vivia, mas é mais tarde, na sua obra Animais Racionais Dependentes – que Francisco Sasseti da Mota explora no livro Da Catástrofe às Virtudes –, que a proposta para a revisão das virtudes aristotélicas se apresenta de uma maneira mais efetiva. É nesta obra que Macintyre reconhece de Aristóteles a sua biologia metafísica e a própria unificação das virtudes. É com esta última obra que Macintyre consegue demostrar porque precisamos nós das virtudes, encontrando essa justificação no facto de sermos animais dependentes e racionais.

A nossa vulnerabilidade determina que não podemos enfrentar os perigos e riscos que a vida nos reserva de forma isolada, precisamos dos outros, e nessa medida somos muito semelhantes aos restantes animais inteligentes: a maneira como enfrentamos os perigos, numa primeira abordagem, é, tal como os restantes animais, corpórea.

A nossa relação com os outros é determinante para estabelecermos um mapa de virtudes, eles estão implicados na nossa vida de forma inelutável, esta é a nossa dimensão de contingência e historicidade que Sasseti da Mota muito bem frisa, por contraposição às abordagens iluministas de universalidade e impessoalidade.

Esta afirmação, que coloca o Homem numa realidade de cooperação com contornos históricos, permite também que se afirme que o conhecimento não é todo alcançado por inferência (ao estilo cartesiano), mas também através da prática, da experiência, das histórias que ouvimos e das tradições que seguimos.

O Homem é um animal vulnerável, a sua maneira de pensar e de agir está relacionada com um conjunto de contingências que o ultrapassam, o deixam vulnerável, dependente, do pai, do patrão, do Estado, eu acrescentaria, do Líder.

Esta vulnerabilidade é mais do que suficiente para justificar a necessidade de encontrar uma ética que assente numa ideia de bem, que seja compreendida por todos e conduza à realização pessoal. A bondade pode ser encarada como o que é bom para o Homem enquanto ser humano (comida), e o que é bom como sendo propriedade das coisas que contribuem para uma função específica (curar/remédios); nessa medida, poderia dizer-se que o bem é o que traz vantagem ao ser humano, enquanto ser individual e enquanto entidade que está em sociedade. Ou seja, é bom o que se beneficia a si próprio, aos outros e à sociedade.

As lideranças também devem alicerçar a sua prática numa ética das virtudes. Tão importante como um pai ou um professor, um líder é uma figura que se mostra ao mundo para ser seguido, para influenciar e, nessa medida, as suas práticas, as suas narrativas e a tradição que representa são contributos determinantes na formação e desenvolvimento do Homem que se quer em movimento para o bem.

Enfrentam também eles a incomensurabilidade dos argumentos morais, a intraduzibilidade da linguagem. Nalguns líderes encontramos, por vezes, Nietzsche e a sua vontade de poder, noutros São Tomás ou mesmo Macintyre, com a sua generosidade justa. Mas os líderes, enquanto Homens em movimento que são, vão-se fazendo. Importa, agora e aqui, deixar claro que se podem fazer melhores se encontrarem, a partir da inspiração trazida por Macintyre, um catálogo de virtudes éticas que respeitem a necessidade de todo e qualquer ser humano se realizar, na sua vontade de ser maior do que a comunidade de que faz parte, da empresa onde trabalha, do Estado e da família a que pertence.

Liderar começa por se entender isto.

Por: Catarina Barosa, diretora de conteúdos da Tema Central

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